Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, setembro 11, 2007

Nelson Magalhães Filho. S/Título, 2002, mista s/ papel, 70X50 cm
Pintura especialmente feita para a capa de Contos de Agosto, de Pablo Sales (Prêmio Braskem Cultura e Arte) que infelizmente não foi creditada no livro.

O dia em que Quentin Tarantino encontrou Jack Kerouac

Para Nelson e Ronaldo

Quando foi, não me recordo exatamente, mas as casas eram antigas (e velhas), porém muitos postes; muitos fios, a noite cor de mercúrio. O mesmo futu­ro decadente ilustrado no cinema americano, a Cruz das Almas dos meus sonhos. Na Rua da Estação o último bar baixava as portas de ferro, o velho proprietário escorraçava Kerouac que caiu protegen­do a última garrafa. Atirado ao chão esperou o nariz parar de sangrar, com a chuva fina o cigarro se partiu. Levantou-se feito um cão aleijado, o cigarro pendendo à boca. Espanou a roupa com tapas descompassados e sentou-se na praça daquela mesma rua, o absinto fustigava o frio. Naquela noite uma motocicleta rondava pelas ruas como se perseguis­se alguém. Sentado Kerouac rememorava a história daquele lugar; contam os livros era ali um imenso galpão de madeira numa terra deserta onde eram confinados os negros enlouquecidos e os brancos bastardos. Um dia, as paredes do galpão desabaram e os sobreviventes fundaram ali a Cidade das Bru­mas, hoje Cruz das Almas.
Kerouac estava ali numa tentativa infame de fu­gir dos próprios pecados. Sentado na praça espera­va o único expresso do dia, trazendo seu último amigo vivo. O trem chegou silenciosamente, apenas algumas faíscas e a fumaça branca escondendo seu solitário passageiro. Um vento repentino derrubou alguns postes e dissipou as brumas trazidas pela locomotiva. Tarantino desceu os degraus dos vagões lentamente, usava óculos escuros e suas roupas eram negras. Estranhamente, não trazia seu guarda-chu­va. Sentou-se ao lado de Kerouac, que apenas esti­cou o braço oferecendo-lhe a garrafa quase vazia. What´s up, Jack?, Fock you, respondeu ele quase sem abrir a boca. Tarantino sorria o invariável sor­riso cínico dos gatos, quase uma cicatriz numa boca rasgada. Fizeram um longo silêncio. Do outro lado da rua estava a casa do poeta que parou de escrever, na radiola tocava um disco de Marianne Faithfull, “I sit and watch as tears go by...”, pela janela podia-se ver a sombra do poeta debruçado sobre a mesa, o copo derramado, o cigarro se apagando esquecido.
E ali ficaram sentados, como dois homens esperando a amada que nunca chega. Mas Tarantino estava estranho, não quis beber, escondia algo. Kerouac sem demonstrar olhava desconfiado, o ruído da motocicleta assustou a ambos, pontuando o clima de agonia contida. Conversaram ouvindo Marianne, falaram sobre consertar o velho chevrolet para uma longa viagem por aí. Tarantino descuidado deixou sua arma na cintura mostrar-se aos olhos do amigo. Ele disse tê-la achado ao lado de um homem morto e estava descar­regada, falou ainda não gostar daquela cidade e insis­tiu em irem já para as ruínas do galpão de madeira. E, partiram pelas ruas inóspitas de Cruz das Almas, a cidade dos bêbados cruéis. Cruzaram com alguns de­les, entoaram o medo pertinente aos estrangeiros. Continuaram caminhando lentamente tendo as ave­nidas desertas como bálsamo, conhecidas a cada pal­mo por Kerouac que teve, em tempos mais selvagens, o rosto arrastado por cada pedra daquele asfalto sujo. Ainda tem algumas cicatrizes desta época difícil.
Era bem verdade já estavam bastante cansados daquela jornada infundada, não lembravam sequer o itinerário, mas dormir seria muito arriscado. O sorriso de Tarantino irritando as últimas forças do companheiro. Cachorros abandonados ladravam latidos inócuos e eles caminhavam e caminhavam, claudicantes como se miasmas tivessem impingido­-lhe gota, caminhavam chutando latas. Kerouac can­tava Marianne, há muito deixada para traz. Anda­ram até perpassar as fronteiras da cidade, ouviu-se ainda mais uma passagem da motocicleta, desta vez mais distante. Na noite seguinte, lá estava Jack Kerouac sentado no mesmo banco frio da Rua da Estação. Não esperava ninguém, apenas saboreava a própria maldição, ou somente refletia sobre ela. Quentin Tarantino nunca mais foi visto. Só a lembrança de seu sorriso urticante.

Pablo Sales, de Contos de agosto

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