Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Foto: Márcio Lima



O JANTAR

Eu estava atônito, sentado em uma mesa de jantar com pessoas que falavam e falavam. Segurava um par de talheres e no meu prato havia alguma coisa colorida que colocaram para mim. Bem na minha frente uma posta de carne cozida tinha um cheiro de plástico queimado e as pessoas comiam e comiam. Uma mulher de óculos me tratava com estranha intimidade e estava aparentemente grávida. Uma criança ruiva e vesga me chamava de pai e uma velha gorda deixava a comida escorrer pelo canto da boca e as pessoas falavam e falavam. Usavam palavras em outra língua que para mim eram apenas ruídos. Fazia um calor insuportável e um lustre enorme sobre a mesa mataria a todos se despencasse lá de cima.

O lustre não caiu, e o calor ensopava meu corpo com um suor fedido. Meu aspecto era horrível, usava uma blusa branca ensebada de mangas mal dobradas e assimétricas, uma calça suja de tempo, as minhas unhas estavam grandes e sujas de graxa. De um gole bebi um líquido marrom que estava num copo qualquer e me levantei. Apenas o menino ruivo me olhou, então eu lhe pedi licença e disse que precisava fazer a barba, pedi licença aos demais que continuaram falando. O menino voltou a brincar com a comida de seu prato com olhar fixo, acho que estava desenvolvendo um autismo ou coisa que o valha.

Procurei pela casa, entre as esculturas de ferro nos cantos da parede e as samambaias mortas no corredor, um banheiro. O banheiro era todo branco com pisos rachados e uma água azul escorrendo pelas paredes. Olhei no espelho e vi que meus dentes estão realmente muito estragados, não sei por que não doem. Meu rosto não estava tão ruim, quer dizer, nada que justifique a cara que me olham quando ando pelas ruas. Vasculhei as portinholas do armário e derrubando frascos de pílulas e comprimidos até que achei uma navalha, mas o creme de barbear tinha virado água. Coloquei a navalha no bolso e pensei “que porra de pessoas são essas que deixam o creme de barbear virar água”.

Saí do banheiro (a água azul já subia em meus joelhos) ainda desnorteado procurando uma porta ou janela, pois, definitivamente, eu precisava sair e, porquê não, fazer a barba. Voltei à sala e as pessoas estavam todas caladas e comprimidas embaixo daquele lustre enorme, algumas sangravam, outras com a boca aberta mostravam o alimento colorido que agora ficava claro ser um tipo de salada. Apenas o menino não estava lá, talvez por seu diminuto tamanho tenha escapado das garras do lustre dourado e agora devia estar embaixo dos lençóis agarrado a algum brinquedo pensando “puta que pariu, essa foi por pouco”. O senhor elegante deixava à mostra uma carteira de cigarros importados sob o paletó que eu peguei com muito cuidado, e ainda tive a impressão de ouvir sua voz engarguelada dizer “holandeses, os cigarros são holandeses”.

Desci as escadas rapidamente, mesmo sentindo as pernas trêmulas, devo ter descido uns cinqüenta andares, e quando cheguei na calçada me senti muito bem. O céu estava arroxeado e uma brisa suave me trazia um pouco de ar para os pulmões. Havia algumas poças de chuva no asfalto e as árvores desfolhadas pareciam doentes. Do outro lado da rua a criança ruiva brincava com uma bicicleta amarela e não sei porque, mas vê-lo bem me deixou um pouco aliviado. Acendi o cigarro holandês do velho e comecei a andar me sentindo muito leve e com o singelo desejo de fazer a barba, quem sabe até mesmo tomar um banho, trocar a camisa. Desci as escadas do metrô onde eu lembrava haver um banheiro com restos de cremes de barbear deixados no chão por viajantes estrangeiros.

Era um lugar muito úmido e com sinais de que há tempo não tinha ido ninguém lá. Sentia-me completamente à vontade, tornei a me olhar no espelho e achei que essa andada tinha me feito muito bem, até meus dentes pareciam melhores. Abri a torneira e saiu um água barrenta, mas logo depois, água bem clara. Joguei água no rosto e até bebi um pouco, esfreguei o rosto e os pêlos foram saindo. Quando olhei no espelho meu rosto estava limpo e a barba não tinha sido nada senão um lodo espesso, então peguei a navalha e fiz um pequeno corte em meu pescoço, exatamente como fazia quando era criança. Pus a mão sobre o corte e senti novamente a sensação do sangue quente entre os dedos. Acendia mais um cigarro quando Rafaela chegou. Lembro de ter me impressionado com seus dedos longos, achei seus olhos bonitos também e pensei o que uma mulher como ela estaria fazendo ali. Rafaela me deitou no chão com cuidado e enrolou um lenço em meu pescoço até parar de sangrar. Aos poucos fui me sentindo mais forte até conseguir levantar novamente. Bebi mais um pouco de água e ela brincou dizendo que eu tinha ficado bem com aquele lenço.

Subimos as escadas do metrô e chovia uma chuva fina, e pensei que talvez aquela chuva fizesse bem para as árvores doentes. Demos as mão e passeávamos sob a chuva. Ela me falou que aprendeu em Cuba a cuidar de ferimentos e que hoje em dia os remédios são venenos todos feitos de plantas da Amazônia. Ofereci-lhe um cigarro, falei que eram holandeses e coisa e tal e ela me disse que eram iguais aos que o seu pai fumava e que o tabaco holandês era o melhor. Sentamos num bar de esquina cheio de clientes modorrentos com um bêbado fazendo couver de Bob Dylan. Pedi café forte, ela então disse que eu precisava comer alguma coisa que ia melhorar minha cicatrização e que eu estava muito magro. Fomos para o seu apartamento, meu deus, mais escadas, assim fico sem pernas, pensei. A essa altura já estávamos andando quase abraçados e quando ela abriu a porta a mesa estava posta, com comidas coloridas sobre a mesa e um lustre enorme no teto.

Pablo Sales, 08/06/2006

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