Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Judite Pimentel. JARDIM DAS DELÍCIAS (Prêmio Aquisição na VI Bienal do Recôncavo - 2002). Acrílica s/ tela, 100X200 cm.

TEM UM POMBO VERDE NAS SUAS COSTAS
para Judite Pimentel, depois que li A Senhora da Torre

tem um pombo verde nas suas costas Judite,
quase cabia sua excitação encrustada
na briga contra os lírios cultivados
no frasco de esperma quando disse a avó
mas logo virou-se irada e dormiu Judite
muito tarde já.

com muita delicadeza a avó,
de guardar selos de cartas antigas
e refresco de abacaxi, importunou-se
por um sol bem longe já vistoso
ou colocando os lírios de vingança no jarro
verde da sala de visitas que nunca
ludibriar vinham nada,
ainda limpou a boca num lenço bordado
e aguou algumas bolachas de batismo
no bolso da camisa enquanto seus olhos
viravam ágatas que encruavam
por toda sua pele lânguida
e a unha do pé esquerdo encravada
pensou no oculto dos poemas não escritos,
quase um anjo no quarto onde dormia a avó
na tarde em que desfiava o piano
entre enormes talagadas de abacaxi: a
sibila entre as cartas antigas comia
os lírios para depois parir felinos
purgativos.

Nelson Magalhães Filho

2 comentários:

ronaldobraga disse...

conheci judite pimentel estudante de belas artes e morando na residencia feminina no canela, depois ela se mudou para a residencia estudantil a R1 que virou mista, ela naquele tempo gostava de mim e eu tambem gostava dela, muito tempo sem ver judite,saudades, e a pintura diz muito da grande artista que ela é e seu texto é bom, ela merece.

Emanoel Nogueira disse...

Ah, eu conheci Judite como dançarina... em Salvador no final dos anos 90 eu participava de um grupo de dança-teatro quando ainda não tinha feito a escola de teatro da UFBA... com a Sandra Del Carmen nos tivemos, eu acredito que para ela também, uma experiência quase mistica... eu adoro sua expressão nos seus quadros, acho profundo, algo importante para este momento onde a arte é tão banalizada...
Emanoel Nogueira