Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Pintura de GRAÇA RAMOS

Teu cheiro amarfanho

durante toda a cidade

e nos dentes postos sobre a mesa

como um escapulário

tua lascívia eu pressinto.

Nem a lua nem teus olhos certamente

me salvarão

deste teu cheiro espesso.

Eu cresci nestas estranhas paragens

sem estrelas

entre bichos e flores como se não fossem

cobertos pela escuridão.

Apenas arfava um golpe entre

o vazio de mim

e a captura de insetos do inferno

em teus cabelos.

Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

Um comentário:

ronaldo braga disse...

galope e flores e animo e insistencias e noites e amores, esse seu poema destila fragrancias de beijos e a pintura de graça ramos sobrepondo figuras: miticas e gentes, numa polaridade extranha e muito inquietante. bonita, pintura bonita e dominadora.