Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, janeiro 31, 2007

grafite em Vilas do Atlântico - Salvador, BA./2002

JACK KEROUAC BLUES

ouvindo o som metálico do sax dourado
deixei de lado as lembranças
já nem sei o que é passado
e o que falam de mim é uma sombra do que não sou
durante todo o trajeto contei as placas da estrada
me perdi num labirinto de um hotel nas montanhas
se nada que eu procuro eu encontro
hoje estou aqui amanhã não sei mais
se todos os caminhos levam a roma
se todos os caminhos já foram percorridos
observei um bloco de gelo derreter ao sol mexicano
guardei livros em garrafas de vidro
desci e subi as escadas dos subterrâneos
coloquei moedas na máquina do cassino e ganhei
copiei num papel o discurso do mendigo da rua 4
andei quarteirões sem fim ouvindo um órgão de igreja
na varanda de uma casa no marrocos respirei o mediterrâneo
alimentei as gaivotas na beira do cais
hoje estou aqui amanhã não sei mais
num parque na fronteira do canadá esperei a cerveja congelar
almocei na madrugada e fiz o desjejum ao por do sol
na desordem dos dias em busca do equilíbrio
flutuando entre as fendas do grand canyon
se tudo que eu procuro eu acho
decidi ir para o norte quando estava a caminho do oeste
na grande reta vi os trilhos se juntarem
hoje estou aqui amanhã não sei mais
pensei ter um barco e nele cruzar todos os oceanos
e no museu pulei pra dentro de um quadro de gauguin
passei a noite com a bailarina do musical da broadway
o que eu criei me levou ao sabor do vento
meus amigos levaram adiante o que eu imaginei
pela janela percorri mundo a fora
se todos os caminhos já foram pisados
corri tantos lugares e todos eles viraram meu lar
uma outra trilha há de existir
o tempo que passa rápido e fugaz
hoje estou aqui amanhã não sei mais

Miguel Cordeiro

http://miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br

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