Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, janeiro 02, 2007

JORNAL DAS PAIXÕES

Qual a arte que vai decifrar o doce movimento
do meu olhar escorregando sobre teu peito
estrelário de paixões?
Cicatrizes cibernéticas
ou prontuário de yoga antigo
é possível entender tudo?
Maneirismos: você é meu inimigo e me ama
viciosamente
sem contradições ou movimentos
ou catástrofes.
É assim que Cruz das Almas doce
que um Gustave Moreau simbolizaria num Orfeu
misterioso
se transforma em um catálogo fantástico
por uma Rua das Flores entardecendo nos beijos
perfumosos das meninas do Pulo do Bode
nas invenções de cada beco
com seus frascos e fogos
longe de Itaparica e perto do mal.
Quem me dirá que as visões de William Blake
e José Salomão são gradações de hemorragias
incuráveis
em nossa mais antiga letargia?
Como viveremos daqui por diante?
Como os olhos de Hébe, onde é
Arcádia/antimatéria
onde as vistas de Hiroshigo nesta parede branca
basta olharmos para que as transmutações
do destino sincronizem com o não-destino,
a vida passa como um temporal fugaz
e nós inteiros, doídos de ver na quiromancia
que o tempo saqueou de nossas almas,
os leões e as andorinhas presas em lembranças.
Transilvânia, Recôncavo, onde são?
Ah, fruta-olor leio no Bagavad Gitâ o nascimento
e a morte: não é verdade que tenha havido
um tempo em que Eu não existia, nem esses
príncipes.
Hébe sente a lua prematura encravada
em sua nuca e a cidade não escutaria
a centelha de seus sussurros
nem a brisa refletida nas lâmpadas de mercúrio.
Farejamos isso, tricotamos nossas razões.
Traçar estas harmonias num espelho inítido
é coisa tão imprópria como tanger
os pássaros
além das campânulas de Asgard
além de todas as dores
as do dia e as da noite. O futuro é nossa festa?
Nas carnes meu amor ainda seria um cachorro
sem dono madrugadamente repelindo a tristeza
nas poças.

Nelson Magalhães Filho

Um comentário:

ronaldo braga disse...

nas poças carnes e nas madrugadas amores, cachorros felizes sãos os homens cachorros, com suas carnes nos cheiros em dentes prontos para o beijo. surpreendente essa poesia,a beleza uma facada nos amores perdidos.