Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

Ontem à noite
lagarteei-me ao seu sinistro luar
minha lamosa flor.
Ontem à noite
irisada
sonhos que uma vez
perdidos
viram salamandras
acesas.

Nelson Magalhães Filho

2 comentários:

ana rüsche disse...

oi, nelson!

nossa, tuas pinturas são lindas, uns traços violentos, gostei bastante.

voltarei.

beijos

ronaldo braga disse...

é isso nelson pessoas vão nos conhecendo, eu sabia que vc ia gostar da ana.essa é uma mulher de metropole com cabeça voltada para a realidade do mundo e não largada em esquinas paranoicas do preconceito.esse poemas é aceso ele é um sonho perdido ou um sonho conquistado? é uma salamandra fumando luas nos quintais de cerejas azuis? poema forte não permite retoque de maquiagem.
abraços