Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Pintura: Nelson Magalhães Filho

Quando a Areia Virou Pó

Isso foi há uns dois ou três verões atrás, talvez o último verão de minha vida. Hoje é só a dor e o nada. Tinha pouco mais de dezoito anos e ainda viajava com meus pais para a casa de praia. A estrada não era esse inferno de hoje, tinha poucos carros e podíamos avistar nas margens da via, vacas ruminando o mato seco. E sempre o toca-fitas com aquela velha-fita-de-Caetano. Nos trechos mais desertos eu até dirigia, completamente inábil e ouvindo meu pai perguntar: “por quê diabos você não consegue se concentrar na pista, aliás por quê diabos você não consegue se concentrar em nada?”. Fim da linha para mim, meu pai retomava a direção, minha mãe continuava lixando as unhas e eu me contentava em observar as vacas.
A casa era avarandada, mas fazia sempre muito calor. Gostava sempre de ver os morcegos desorientados quando entrávamos em casa e abríamos todas as janelas. Quando eles fugiam eu pensava o que mais haveria para fazer naquele fim de mundo. O sol me irritava e a água do mar me deixava o corpo empolado. Em poucas horas começaram a chegar aquela horda de cinquentões para visitar meus pais e perguntar como foi o natal? E o ano novo? Logo estavam sentados jogando cartas e falando e comendo e bebendo. Dentre todos eles um me distraía, um tio gordo não sei lá de onde que contava histórias pornográficas e me deixava fumar de seus cigarros. Naquela tarde o tio gordo estava se superando, todos riam muito, ele falava sobre uma mulher que quase morria sufocada entre as dobras de sua barriga quando transavam na cabine de seu primeiro caminhão, e concluía dizendo que demorou a socorrê-la por parecer que os gemidos de angústia eram gemidos de prazer.
Minha mãe parecia à parte daquilo tudo e continuava lixando as unhas freneticamente. Vez em quando levantava e ia até a cozinha trazer mais comida. Tudo se repetia como em todos os verões, falavam de quanto dinheiro tinham ganho e perdido no ano, falavam do sucesso dos filhos e das viagens que ainda farão. Tudo se repetia até que o tio gordo se entalou com um pedaço de carne e começou a emitir ruídos estranhíssimos, começou a ficar com a pele branca, roxa, preta, levanta o braço, bebe água, dá um tapa nas costas, meu deus ele parou de respirar, alguém faz alguma coisa. E no meio daquela balbúrdia meu pai deu um soco na barriga do gordo e um alimento gosmento espirrou na parede. Fez-se um silêncio tenebroso, puta que pariu, eu queria sumir dali. Meu pai se levantou palpou o pescoço do tio e falou baixo: “ele já era, deve ter enfartado depois que engasgou ou engasgou depois do enfarte”. Minha mãe foi até a cozinha e trouxe mais bebida.
O tio ainda estava lá com a cabeça enterrada no peito e aos poucos se ia retomando o jogo de cartas, as viagens para Bariloche em junho e a cerveja agora sim está gelada. Com o tio morto aquela casa se tornara para mim ainda mais insuportável. Peguei seu maço de cigarros (ele não fumaria mais, de fato), e fui para a praia e me sentindo bem com o céu nublado e uma ameaça leve de chuva. Cadê as pessoas daquele lugar, acho que a chuva fina amedrontou a todos. Sempre gostei de chuva fina, achava que uma porra de uma chuva esconderia minhas costelas brancas, esconderia meus eczemas, esconderia minha cara feia do mundo. Hoje a chuva cai preta e nem mesmo eu, tenho coragem de sair do quarto quando está chovendo, sem falar dos corpos que são arrastados pelas ruas e de todo o pó no ar quando a chuva se vai.
O caminho até a praia não era longo, uma grama seca não encobria a areia branca feita em trilha. As vacas ainda ruminavam e me olhavam desconfiadas. Um ou outro arbusto abrigava lagartas-de-fogo da chuva, que virariam, quem diria, uma borboleta. Parava algumas vezes para descansar e pensava em voltar para casa para fazer o quê. Mas eu caminhava e não conseguia tirar da cabeça a imagem do tio espumando bolhas verdes. Já avistava a praia, completamente deserta, teria vergonha se tivesse alguém lá, pois, definitivamente, eu não estava com roupas adequadas para estar ali. Tirei os sapatos e me acostumei com a areia branca nos pés, sentei e apenas olhava o mar, os saveiros ancorados, as gaivotas fugindo para onde.
Começava a me sentir à vontade, confortado pela sensação de solidão e da certeza de não ser observado, nuvens negras se desenhavam no horizonte e o vento estava frio demais para um verão. Recostei a cabeça na areia e fechei os olhos até adormecer. Acordei com uma voz suave: “hei, você, vamos dar um mergulho?” mais que porra, pensei, e quando abri os olhos tinha uma garota com roupas esdrúxulas como as minhas, era bem branca também e bebia uma lata de coca-cola. “ não, eu não estou afim”, “qual é, só um mergulho...”, “eu não posso”, “não tenha medo, o pior que pode acontecer é morrermos afogados”, “é que eu tenho eczemas”, e ela foi tirando a roupa até ficar completamente nua, “ se você vier eu deixo você me tocar”, comecei a sentir meu coração saindo pela boca, porra, eu sou alérgico a plâncton, olha os peitos dela. “vamos ficar aqui na areia mesmo” falei, “mas pode vir alguém” meu deus, de onde saiu essa garota?, a tempestade está se aproximando e ela não dá a mínima... “você é daqui?”, “não, vim passar o verão na casa de uns amigos”, “quer um cigarro?”, “depois, agora vou pro mar, se quiser é só vir”. E ela foi lentamente para o mar. Bebi o resto de sua coca-cola e voltei para casa certo de que aquele era o melhor verão de minha vida.

Pablo Sales 09/11/2006


4 comentários:

Anônimo disse...

A narrativa de Pablo Sales permeada de lembranças e verões torna-se brisa leve nesses janeiros de 2007. De prosa segura que seduz o leitor do começo ao fim, Sales é para mim um dos grandes contistas dessa nova safra desse milênio. Minha irmã, que vive em Ituberá, me presenteou no ano passado com um livro de Sales, fiquei grato ao descobrir um verdadeiro e novo contista.

Anônimo disse...

Pablo,
ainda engatinho quando posto mensagens no Blog do Nélson Magalhães, esqueço de colocar o nome, aí vai: Miguel Carneiro.

luciano fraga disse...

Grande Pablo,o fluxo do tempo engole tudo,transforma e nos carrega de volta à tediosa repetição dos dias.Seu texto nos salva deste cotidiano mórbido antes que viremos pó... Aguardo outros.

ronaldo braga disse...

essa mulher pintura do nelson magalhães me reporta às atrizes do cinema da decada de 40, charme e beleza em movimentos sensuais e enloquecedores, eu menino na decada de 60 assistia esse filmes pensando em todo aquele charme e o que estava escondido por toda aquela roupa e maquiagem.