Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, janeiro 31, 2007

grafite em Vilas do Atlântico - Salvador, BA./2002

JACK KEROUAC BLUES

ouvindo o som metálico do sax dourado
deixei de lado as lembranças
já nem sei o que é passado
e o que falam de mim é uma sombra do que não sou
durante todo o trajeto contei as placas da estrada
me perdi num labirinto de um hotel nas montanhas
se nada que eu procuro eu encontro
hoje estou aqui amanhã não sei mais
se todos os caminhos levam a roma
se todos os caminhos já foram percorridos
observei um bloco de gelo derreter ao sol mexicano
guardei livros em garrafas de vidro
desci e subi as escadas dos subterrâneos
coloquei moedas na máquina do cassino e ganhei
copiei num papel o discurso do mendigo da rua 4
andei quarteirões sem fim ouvindo um órgão de igreja
na varanda de uma casa no marrocos respirei o mediterrâneo
alimentei as gaivotas na beira do cais
hoje estou aqui amanhã não sei mais
num parque na fronteira do canadá esperei a cerveja congelar
almocei na madrugada e fiz o desjejum ao por do sol
na desordem dos dias em busca do equilíbrio
flutuando entre as fendas do grand canyon
se tudo que eu procuro eu acho
decidi ir para o norte quando estava a caminho do oeste
na grande reta vi os trilhos se juntarem
hoje estou aqui amanhã não sei mais
pensei ter um barco e nele cruzar todos os oceanos
e no museu pulei pra dentro de um quadro de gauguin
passei a noite com a bailarina do musical da broadway
o que eu criei me levou ao sabor do vento
meus amigos levaram adiante o que eu imaginei
pela janela percorri mundo a fora
se todos os caminhos já foram pisados
corri tantos lugares e todos eles viraram meu lar
uma outra trilha há de existir
o tempo que passa rápido e fugaz
hoje estou aqui amanhã não sei mais

Miguel Cordeiro

http://miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br
Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

Lavínia
cheia de paixões e psilocibina.
Lavínia e as asas
sangrando.
Lavínia me contou que seu passatempo favorito
era se atrever a beijar teiús
e uivar perante a presença do seu cachorro rabujento,
vestir uma camisola transparente
dormir ao relento
por os olhos nas frestas:
zurrar barbárie
sangrando.

Nelson Magalhães Filho
Miguel Cordeiro. Black and blue. Pintura s/papel, 1995

Pintura retirada do Blog de meu amigo Miguel Cordeiro:
http://miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br


ESPIRAL

Cansado de indagar
ele se curva, ramo
pendente de abismos,
a brevidade vã que
turva – excesso de luz
sobre a coisa viva,
cor demais, que ofusca
a incessante busca
de sol pela flor nativa.

Do alto vacilante ele
mira o fundo do vale
inundado pela manhã
com sombras, e no afã
(desesquecido do seu
instante-ramo) quer o
mergulho sem asas, o
abandono à sua medusa,
que do seu próprio

peito vaza. Mas se
faz de si o centro quem
o estapeia é o vento
que arranca o ramo
na direção contrária,
e a sedução do vôo
abismo adentro se
interrompe, e o faz
dobrar ante o céu cinzento.

Primeiro curvado; depois
prostrado. Antes, porém
assoberbado de razão,
era el hombre dentro
de la piel, que se tinha
inteiramente são. Deu
nomes para que se
apoiasse sua fragilidade
de ramo, abusou de

pseudo-bálsamos. Tais:
cânhamo, deuses, rosas
carnais, a negação
pelo desdém, oscilou
no vai e vem das
espirais onde se
enovela o ser e
a palavra explode
mas não colhe espigas.

Voltou-se para o fim.
(Pai Eterno!) Sujo de
crendices, de confusa
ciência, (Olhai por
mim), porém se
percebe apenas
ramo, não o último
nem o máximo no
cosmogônico jardim.

João Filho

Quer ler mais os textos do João? Vá no Blog dele:
http://hiperghetto.blogspot.com

Visite também Diadorim Livros:
http://www.diadorimlivros.blogspot.com
Quer conhecer a Állex Leilla? Visite seu Blog agora mesmo:
http://allexleilla.blogspot.com





Bronze

Amei sim, foi ontem.
Não chovia nem fazia sol,
o tempo era de pedra,
a vida era besta,
minhas mãos nada escreviam.
Eu quis que acontecesse no escuro,
naquelas primaveras
não havia amores,
nenhum corpo, só utopia.
Te busquei até no cansaço,
de frente, de lado,
as palavras brotaram,
- peguei-as!
De tanto gostar da noite
vi tudo adormecer
inexplicavelmente
entre nós.
Eu chorei pra que viesse o claro
mas era madrugada,
apenas teus olhos piscaram
e eu nunca esqueci.
O dia enterrou aquele brilho,
o dia revirou-nos em bronze
e por mais que eu tente
não o tenho, nem em faíscas, outra vez.
Paciência!

Hoje eu sei o que escrevo.

Állex Leilla

terça-feira, janeiro 30, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm.

sábado, janeiro 27, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

O CANTO DOS CACHORROS INSANOS

Eu bem que poderia ser o rapaz mais melancólico de Cidade das Sombras, mas ainda dava para ouvir Hey, that's no way to say goodbye na voz cavernosa de Leonard Cohen no meu surrado discman e ficar comovido com as canções que Tarcísio-buenas escutava bem alto naquele inverno doloroso, depois de comer-cerejas e se converter em charcos de vodka barata. Mas essa noite lembrei-me apenas das muitas seringas manchadas de um estranho líquido que circula em abundância por estas tristes ruas impulsionado pelos movimentos do coração, tá ligado? Solitude áspera, cara. Peguei no livro Contos de Agosto de Pablo Sales e dei uma lida rápida. Estou ouvindo Vic Chesnutt. Invernia de Agosto. Qualquer noite, destas que a gente-sangrados sob uma pálida lua sinistra, um embrenhar-se na cidade de Cruz das Almas reconvexa, evocando suas ruas inóspitas, bares imundos, seus anjos marginalizados e, muita dor, muita. Só resta escrever uma existência imaginada em danação, até a desgraça pervertida. Chove. Praças de árvores velhas e jardins esquecidos, um circo que nunca tenha existido coberto de manchas negras que o tempo doloroso mofava zombarias melancólicas: são diários, fotografias, discos, filmes e bichos. O velho tédio cruzalmense, os frutos vermelhos e doces das ruas violetas das ruas mais que felinas. O vampiro da Suzana ataca novamente. Drugstore Cowboy ou naquele outro filme com Mat Dillon, Alguém para Dividir os Sonhos. O porra do Pedro que nunca derramara lágrimas, precipícios de putas gostosas com flores-neuróticas nos cabelos. Vago de bicicleta pela Rua das Pitangas encoberta de morcegos, fazendo versos de amor para Mariana. Tudo como um filme antigo num cinema corrompido pelo tempo, onde ouvimos Tom Waits, Nick Cave, Velvet Underground, Marianne Faithful. Tanto faz o livro de Kafka sobre a mesa ou a bela Layla com suas unhas de sangue lembrando-me uma tarde de Caio Abreu... Cruz das Almas está devassada por um estranho perfume recheado de barbitúricos que impregnam os corpos de seus habitantes-lobos, amores-bandidos e duendes. Esta cidade tem uma cauda de dragão voltada para um oceano de vivências perversas. Estes temporais de agosto apodrecem os olhos de Joana por suas ruas vadias. Enterrarei rosas vermelhas em seus jardins. Calcar com os pés nos cravos e begônias. Como as fotos da beleza venenosa de Lorena. Ela tinha um piercing na língua e quanto mais profundamente triste mais bela ficava. Ouvia aqueles blues e tripudiava muito com a sorte. Sentia falta da Lorena... Cruz das Almas, mon amour, Cidade dos Sonhos, cidade dos girassóis mortos. Bar de Turíbio sábado à noite com Patt Smith numa rádio qualquer. Ou Billie Holiday. Chupar-cerejas pensando em Angelina Jolie e com ciúmes da lasciva Verinha... Também Milles Davis, Lou Reed num coreto de praça, dores azuis, forte soprava o vento. Lembro Lita Passos toda de negro bebendo chá de duas gardênias e um lírio. Ovelhas mortas, Maysa, Ângela Ro Ro, punks cruzalmenses. Penso em Béatrice Dalle, em Betty Blue para... em Salatiel tatuado com as dores do Recôncavo, desacostumado com o tempo cinza de agosto. Lágrimas profanas racham minha cara e, numa banheira velha de louça, bebo losna pela madrugada das vacas sagradas. Patrícia Mendes com os lábios borrados dos lilases como Sora Morela no Teatro do Porão em Um Trem da Cobiça ou A Rua das Lástimas, sempre com uma flor entre os dentes ou bizarrias quantas, Patrícia é uma poeta estranha. Agosto arrasta-me para os bosques de serpentes verdes, para as águas de gaivotas bravias em La Playa. O simulacro dessas águas espalham pó de almíscar por toda a noite em que Quentin Tarantino encontrou Jack Kerouac na Rua da Estação, nesta cidade das brumas onde nasceu Lakarus. Pros culhões, o porra do Lakarus que vá vomitar em suas próprias orquídeas, tá ligado? Sabe Júlia, aquelas coisas percorrendo as veias podem ser crisântemos, pode ser que não. Apenas sei que não sustentam borboletas. Adoro Francis Bacon e Sante Scaldaferri, mas o que Paulo mais desenhava eram aves... Como disse antes, não conheci nenhuma Helena nessas noites-de-cerejas e tudo, mesmo uma fímbria estranha de desejo a noite, as cerejas...

Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50cm.
O artista plástico EDERSON BATISTA está desenhando uma história em quadrinhos baseada na peça teatral FÚCSIA, de Ronaldo Braga e Nelson Magalhães Filho.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

desaquieto de martírio-precede a morte
visado pelo cheiro embebido-fanatismo
sensual intenso: inseto noturno
a depravar uma fragância que verte
pelos lábios túmidos, sente dentro de si
muito ardente fundo-anseio de fim
sem vir a ser
apenas principiar efêmeros desejos.

Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

Ontem à noite
lagarteei-me ao seu sinistro luar
minha lamosa flor.
Ontem à noite
irisada
sonhos que uma vez
perdidos
viram salamandras
acesas.

Nelson Magalhães Filho

sábado, janeiro 20, 2007

Então, a ausência.
Quando acordo, as luzes da cidade já estão acesas.
A coleção de recortes dele: pára-lamas banhados de chuvas, bacias de alumínio refletindo o sol, crianças debaixo de biqueiras, crianças nuas, alegres, molhadas, brinquedos gigantes girando num parque vazio.

Não me recordo de nenhuma pessoa em especial na cidade de origem, ando no meio das ruínas, as árvores que não voltam a crescer, o cinza-marrom-amortecido-permanente pairando sobre os esqueletos, ocupando espaço entre o resto de chão e as crateras, ando e nunca, nem por uma frestazinha de memória, consigo me lembrar de alguém.O templo da memória. Há que se adentrar de pés nus e quentes, sem intenção de resgate, apenas implorando um sentido qualquer. Gota de chuva, raio de sol. Que quando somos assim, implorantes, a bolha do mundo acha graça e nos dá um agrado qualquer. Este: ele vem de bicicleta, cabelos assanhados, gritando meu nome antes da curva do rio. Ele vem e eu espero seu descer da bicicleta, seus braços em meu pescoço, seu beijo em minha pele, seu hálito de café-com-leite.

Então, a presença.
Quando durmo, a extensão morna de seu corpo ainda faz giros na sala. Está tudo tão claro na cidade. Olho os seus recortes: crianças na biqueira, pára-lamas banhados de chuva, brinquedos gigantes girando num parque vazio, bacias de alumínio refletindo o sol.

Állex Leilla

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

O sol-síntese na
gota que
explode na palma
aberta da
folha em
que
um
colibri

vem bicar
sedento da seiva
amanhecida
que ele
sorve
a
terça parte
e é a combustão
para sua
sutilíssima
vida.

João Filho
Pintura de Nelson Magalhães Filho. Série de 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

Vou andar de bicicleta pela tarde
embriagado pelo natal com uma grinalda
de folhas penduradas numa orelha.
A estridência da música de Nick Cave me consome
em saudades devastadoras.
Suscitar sonhos de nuvens luminosas-fragores,
pássaro-noturno transcender
drásticas marés
de águas indomáveis,
fumar margaridas-incógnitas
que se retraem acaso sobrevenha a audácia
de atirar casca de dor na chuva.
Febril, vislumbrar um canto escuro para se ninar
um pássaro precioso-deslumbramento
do torpor que deixa um rastro impenetrável em teus olhos,
mistérios compassivos prendam pelas caminhadas
desastradas onde os bichos desaguam-crus-lamúrias
desfrutam sua esperança de nadar
entre facas e espelhos.

Nelson Magalhães Filho
Pintura de Nelson Magalhães Filho

fúcsia é uma planta ornamental chamada brinco-de-princesa
"Este é o tempo dos assassinos"

Prévia do projeto de uma história em quadrinhos desenvolvida pelo artista plástico EDERSON, baseada no texto teatral FÚCSIA, de Nelson Magalhães Filho e Ronaldo Braga.

"LAKARUS: eu gosto de observá-los reunidos na dor. As fisionomias são melhores quando eles sofrem. São sensatos, são perfeitos. Cada filho, filha, mulher, sobrinhos, todos parecem muito inteligentes. É aí que reina uma calma assustadora. Nenhum movimento. Apenas a bunda, que não parecia pertencer àquele rosto sofredor de filha no enterro do pai. Adriana! No rosto, um ar de dignidade. Uma ternura quase absurda".
Pintura de Nelson Magalhães Filho. Série de 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm

CAVALOS DISCORREM PELA AFÁVEL NOITE

cavalos discorrem pela afável noite
até ficar insuportável beijá-los
- com a língua beijar cavalos -
o tempo não passa nunca
o tempo chora sangue de anjo sangue de cavalo.
ainda não sei o que tem dentro de mim
que não passa nunca e chora
sangue de cavalo sangue de anjo.
eu cambaleava pela afável noite de ontem
com a sede insuportável do beijo
vadiando pelos becos escuros da gamboa
vadiando pelas ruas estreitas
esculpidas de perturbados da gamboa.
aí eu começei o canto esganiçado
para você me ver assim: uma
muralha de dor,
uma carne tecida de flores
que vão ficando álgidas de aves marinhas.
meu amor que não conheço apenas me pasta
neste tempo perdido no mar negro
abortando cavalos e cadelas e rezando pro anjo.
vivo pastando no mar negro como peixe boi
estrela do mar negro percorro temporais selvagens
e cada vez que me perco pela afável noite de ontem
o oco de mim vai vomitando
um sentimento nostálgico de perdas
espelhos de mortos com seus ossos de medo.

Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Pintura de Nelson Magalhães Filho. 2004-2006, mista s/ papel. 70X50 cm


Com olhos resvalando eu me encaminho
arrastados passos nesta rua oscilam
como uma flor que reluzente chove:
a cidade incendiada.
Reduzir a cinzas essa chuva.
Por acúleo mordo um rosto percevejo,
em inexistência rompem-se solenemente árvores.
Esta é a cidade das sombras
tão nauseante quanto os ventos escuros,
negro seu olhar fitou predatório de insetos e murmurou.

Nelson Magalhães Filho

terça-feira, janeiro 16, 2007

Pintura de Nelson Magalhães Filho. 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm


Despencam os moluscos
o nacarado dos olhos casquinando das madressilvas
lembro a rosa submersa da aurora.
Em aves aquáticas as horas apodrecem
arreganhando os dentes perfumados na rosa áspera
da noite indormida.
Ouvindo uma velha canção de Tom Waits hoje rosno para o nada.

Nelson Magalhães Filho




sexta-feira, janeiro 12, 2007




"Minha vida que não me ama, minha amada que não vai me amar: seduzo as duas."
Jack Kerouac


Do mar
cheiro a chuva
na boca.
Os olhos vermelhos de berinjela e por
do sol,
cabelos esvoaçantes
despedem. Anônima
na imensidão
vejo-te sem algas dentro das águas.

Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Judite Pimentel. JARDIM DAS DELÍCIAS (Prêmio Aquisição na VI Bienal do Recôncavo - 2002). Acrílica s/ tela, 100X200 cm.

TEM UM POMBO VERDE NAS SUAS COSTAS
para Judite Pimentel, depois que li A Senhora da Torre

tem um pombo verde nas suas costas Judite,
quase cabia sua excitação encrustada
na briga contra os lírios cultivados
no frasco de esperma quando disse a avó
mas logo virou-se irada e dormiu Judite
muito tarde já.

com muita delicadeza a avó,
de guardar selos de cartas antigas
e refresco de abacaxi, importunou-se
por um sol bem longe já vistoso
ou colocando os lírios de vingança no jarro
verde da sala de visitas que nunca
ludibriar vinham nada,
ainda limpou a boca num lenço bordado
e aguou algumas bolachas de batismo
no bolso da camisa enquanto seus olhos
viravam ágatas que encruavam
por toda sua pele lânguida
e a unha do pé esquerdo encravada
pensou no oculto dos poemas não escritos,
quase um anjo no quarto onde dormia a avó
na tarde em que desfiava o piano
entre enormes talagadas de abacaxi: a
sibila entre as cartas antigas comia
os lírios para depois parir felinos
purgativos.

Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Pintura de GRAÇA RAMOS

Teu cheiro amarfanho

durante toda a cidade

e nos dentes postos sobre a mesa

como um escapulário

tua lascívia eu pressinto.

Nem a lua nem teus olhos certamente

me salvarão

deste teu cheiro espesso.

Eu cresci nestas estranhas paragens

sem estrelas

entre bichos e flores como se não fossem

cobertos pela escuridão.

Apenas arfava um golpe entre

o vazio de mim

e a captura de insetos do inferno

em teus cabelos.

Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Pintura de Nelson Magalhães Filho


ABORTADA
"...não consegui chegar a nada. Nem mesmo tornar-me mau..."
Dostoiévski


Movimento-me entre lanças
assanhando as tranças,
imitando a "dança das borboletas"
que esmago
contra as tetas
das têmporas que pulsam
em compasso de aneurisma...
Não aceito que empurres
esta paz azedada,
alojada
na ponta da espada
das flôres que murcham
em hostis cataclismas...
Sustentado num fio
descoberto
vou-me suportando
em noites de martírio,
com remotos delírios
e jorros de escuridão.
Quando me abandonas
nu
baile das bestas
das madrugadas insanas,
agasalho-me em sextas
feiras
apinhadas de ratos
aninhados nos trapos
dos retalhos de mim...
Agora,
avanço bem lento,
cravando as unhas
lá dentro
da goela de outros,
imbecis e afoitos
que entre
mugidos e arrotos
vomitam
sim, sim, sim,
ao destempero dos ferros
que repisam os calos
aos gritos e berros
até que embalsamem
o cadáver da paz
que meu peito abortou...

Luciano Fraga

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Pintura: Nelson Magalhães Filho

Quando a Areia Virou Pó

Isso foi há uns dois ou três verões atrás, talvez o último verão de minha vida. Hoje é só a dor e o nada. Tinha pouco mais de dezoito anos e ainda viajava com meus pais para a casa de praia. A estrada não era esse inferno de hoje, tinha poucos carros e podíamos avistar nas margens da via, vacas ruminando o mato seco. E sempre o toca-fitas com aquela velha-fita-de-Caetano. Nos trechos mais desertos eu até dirigia, completamente inábil e ouvindo meu pai perguntar: “por quê diabos você não consegue se concentrar na pista, aliás por quê diabos você não consegue se concentrar em nada?”. Fim da linha para mim, meu pai retomava a direção, minha mãe continuava lixando as unhas e eu me contentava em observar as vacas.
A casa era avarandada, mas fazia sempre muito calor. Gostava sempre de ver os morcegos desorientados quando entrávamos em casa e abríamos todas as janelas. Quando eles fugiam eu pensava o que mais haveria para fazer naquele fim de mundo. O sol me irritava e a água do mar me deixava o corpo empolado. Em poucas horas começaram a chegar aquela horda de cinquentões para visitar meus pais e perguntar como foi o natal? E o ano novo? Logo estavam sentados jogando cartas e falando e comendo e bebendo. Dentre todos eles um me distraía, um tio gordo não sei lá de onde que contava histórias pornográficas e me deixava fumar de seus cigarros. Naquela tarde o tio gordo estava se superando, todos riam muito, ele falava sobre uma mulher que quase morria sufocada entre as dobras de sua barriga quando transavam na cabine de seu primeiro caminhão, e concluía dizendo que demorou a socorrê-la por parecer que os gemidos de angústia eram gemidos de prazer.
Minha mãe parecia à parte daquilo tudo e continuava lixando as unhas freneticamente. Vez em quando levantava e ia até a cozinha trazer mais comida. Tudo se repetia como em todos os verões, falavam de quanto dinheiro tinham ganho e perdido no ano, falavam do sucesso dos filhos e das viagens que ainda farão. Tudo se repetia até que o tio gordo se entalou com um pedaço de carne e começou a emitir ruídos estranhíssimos, começou a ficar com a pele branca, roxa, preta, levanta o braço, bebe água, dá um tapa nas costas, meu deus ele parou de respirar, alguém faz alguma coisa. E no meio daquela balbúrdia meu pai deu um soco na barriga do gordo e um alimento gosmento espirrou na parede. Fez-se um silêncio tenebroso, puta que pariu, eu queria sumir dali. Meu pai se levantou palpou o pescoço do tio e falou baixo: “ele já era, deve ter enfartado depois que engasgou ou engasgou depois do enfarte”. Minha mãe foi até a cozinha e trouxe mais bebida.
O tio ainda estava lá com a cabeça enterrada no peito e aos poucos se ia retomando o jogo de cartas, as viagens para Bariloche em junho e a cerveja agora sim está gelada. Com o tio morto aquela casa se tornara para mim ainda mais insuportável. Peguei seu maço de cigarros (ele não fumaria mais, de fato), e fui para a praia e me sentindo bem com o céu nublado e uma ameaça leve de chuva. Cadê as pessoas daquele lugar, acho que a chuva fina amedrontou a todos. Sempre gostei de chuva fina, achava que uma porra de uma chuva esconderia minhas costelas brancas, esconderia meus eczemas, esconderia minha cara feia do mundo. Hoje a chuva cai preta e nem mesmo eu, tenho coragem de sair do quarto quando está chovendo, sem falar dos corpos que são arrastados pelas ruas e de todo o pó no ar quando a chuva se vai.
O caminho até a praia não era longo, uma grama seca não encobria a areia branca feita em trilha. As vacas ainda ruminavam e me olhavam desconfiadas. Um ou outro arbusto abrigava lagartas-de-fogo da chuva, que virariam, quem diria, uma borboleta. Parava algumas vezes para descansar e pensava em voltar para casa para fazer o quê. Mas eu caminhava e não conseguia tirar da cabeça a imagem do tio espumando bolhas verdes. Já avistava a praia, completamente deserta, teria vergonha se tivesse alguém lá, pois, definitivamente, eu não estava com roupas adequadas para estar ali. Tirei os sapatos e me acostumei com a areia branca nos pés, sentei e apenas olhava o mar, os saveiros ancorados, as gaivotas fugindo para onde.
Começava a me sentir à vontade, confortado pela sensação de solidão e da certeza de não ser observado, nuvens negras se desenhavam no horizonte e o vento estava frio demais para um verão. Recostei a cabeça na areia e fechei os olhos até adormecer. Acordei com uma voz suave: “hei, você, vamos dar um mergulho?” mais que porra, pensei, e quando abri os olhos tinha uma garota com roupas esdrúxulas como as minhas, era bem branca também e bebia uma lata de coca-cola. “ não, eu não estou afim”, “qual é, só um mergulho...”, “eu não posso”, “não tenha medo, o pior que pode acontecer é morrermos afogados”, “é que eu tenho eczemas”, e ela foi tirando a roupa até ficar completamente nua, “ se você vier eu deixo você me tocar”, comecei a sentir meu coração saindo pela boca, porra, eu sou alérgico a plâncton, olha os peitos dela. “vamos ficar aqui na areia mesmo” falei, “mas pode vir alguém” meu deus, de onde saiu essa garota?, a tempestade está se aproximando e ela não dá a mínima... “você é daqui?”, “não, vim passar o verão na casa de uns amigos”, “quer um cigarro?”, “depois, agora vou pro mar, se quiser é só vir”. E ela foi lentamente para o mar. Bebi o resto de sua coca-cola e voltei para casa certo de que aquele era o melhor verão de minha vida.

Pablo Sales 09/11/2006


Foto: Márcio Lima



O JANTAR

Eu estava atônito, sentado em uma mesa de jantar com pessoas que falavam e falavam. Segurava um par de talheres e no meu prato havia alguma coisa colorida que colocaram para mim. Bem na minha frente uma posta de carne cozida tinha um cheiro de plástico queimado e as pessoas comiam e comiam. Uma mulher de óculos me tratava com estranha intimidade e estava aparentemente grávida. Uma criança ruiva e vesga me chamava de pai e uma velha gorda deixava a comida escorrer pelo canto da boca e as pessoas falavam e falavam. Usavam palavras em outra língua que para mim eram apenas ruídos. Fazia um calor insuportável e um lustre enorme sobre a mesa mataria a todos se despencasse lá de cima.

O lustre não caiu, e o calor ensopava meu corpo com um suor fedido. Meu aspecto era horrível, usava uma blusa branca ensebada de mangas mal dobradas e assimétricas, uma calça suja de tempo, as minhas unhas estavam grandes e sujas de graxa. De um gole bebi um líquido marrom que estava num copo qualquer e me levantei. Apenas o menino ruivo me olhou, então eu lhe pedi licença e disse que precisava fazer a barba, pedi licença aos demais que continuaram falando. O menino voltou a brincar com a comida de seu prato com olhar fixo, acho que estava desenvolvendo um autismo ou coisa que o valha.

Procurei pela casa, entre as esculturas de ferro nos cantos da parede e as samambaias mortas no corredor, um banheiro. O banheiro era todo branco com pisos rachados e uma água azul escorrendo pelas paredes. Olhei no espelho e vi que meus dentes estão realmente muito estragados, não sei por que não doem. Meu rosto não estava tão ruim, quer dizer, nada que justifique a cara que me olham quando ando pelas ruas. Vasculhei as portinholas do armário e derrubando frascos de pílulas e comprimidos até que achei uma navalha, mas o creme de barbear tinha virado água. Coloquei a navalha no bolso e pensei “que porra de pessoas são essas que deixam o creme de barbear virar água”.

Saí do banheiro (a água azul já subia em meus joelhos) ainda desnorteado procurando uma porta ou janela, pois, definitivamente, eu precisava sair e, porquê não, fazer a barba. Voltei à sala e as pessoas estavam todas caladas e comprimidas embaixo daquele lustre enorme, algumas sangravam, outras com a boca aberta mostravam o alimento colorido que agora ficava claro ser um tipo de salada. Apenas o menino não estava lá, talvez por seu diminuto tamanho tenha escapado das garras do lustre dourado e agora devia estar embaixo dos lençóis agarrado a algum brinquedo pensando “puta que pariu, essa foi por pouco”. O senhor elegante deixava à mostra uma carteira de cigarros importados sob o paletó que eu peguei com muito cuidado, e ainda tive a impressão de ouvir sua voz engarguelada dizer “holandeses, os cigarros são holandeses”.

Desci as escadas rapidamente, mesmo sentindo as pernas trêmulas, devo ter descido uns cinqüenta andares, e quando cheguei na calçada me senti muito bem. O céu estava arroxeado e uma brisa suave me trazia um pouco de ar para os pulmões. Havia algumas poças de chuva no asfalto e as árvores desfolhadas pareciam doentes. Do outro lado da rua a criança ruiva brincava com uma bicicleta amarela e não sei porque, mas vê-lo bem me deixou um pouco aliviado. Acendi o cigarro holandês do velho e comecei a andar me sentindo muito leve e com o singelo desejo de fazer a barba, quem sabe até mesmo tomar um banho, trocar a camisa. Desci as escadas do metrô onde eu lembrava haver um banheiro com restos de cremes de barbear deixados no chão por viajantes estrangeiros.

Era um lugar muito úmido e com sinais de que há tempo não tinha ido ninguém lá. Sentia-me completamente à vontade, tornei a me olhar no espelho e achei que essa andada tinha me feito muito bem, até meus dentes pareciam melhores. Abri a torneira e saiu um água barrenta, mas logo depois, água bem clara. Joguei água no rosto e até bebi um pouco, esfreguei o rosto e os pêlos foram saindo. Quando olhei no espelho meu rosto estava limpo e a barba não tinha sido nada senão um lodo espesso, então peguei a navalha e fiz um pequeno corte em meu pescoço, exatamente como fazia quando era criança. Pus a mão sobre o corte e senti novamente a sensação do sangue quente entre os dedos. Acendia mais um cigarro quando Rafaela chegou. Lembro de ter me impressionado com seus dedos longos, achei seus olhos bonitos também e pensei o que uma mulher como ela estaria fazendo ali. Rafaela me deitou no chão com cuidado e enrolou um lenço em meu pescoço até parar de sangrar. Aos poucos fui me sentindo mais forte até conseguir levantar novamente. Bebi mais um pouco de água e ela brincou dizendo que eu tinha ficado bem com aquele lenço.

Subimos as escadas do metrô e chovia uma chuva fina, e pensei que talvez aquela chuva fizesse bem para as árvores doentes. Demos as mão e passeávamos sob a chuva. Ela me falou que aprendeu em Cuba a cuidar de ferimentos e que hoje em dia os remédios são venenos todos feitos de plantas da Amazônia. Ofereci-lhe um cigarro, falei que eram holandeses e coisa e tal e ela me disse que eram iguais aos que o seu pai fumava e que o tabaco holandês era o melhor. Sentamos num bar de esquina cheio de clientes modorrentos com um bêbado fazendo couver de Bob Dylan. Pedi café forte, ela então disse que eu precisava comer alguma coisa que ia melhorar minha cicatrização e que eu estava muito magro. Fomos para o seu apartamento, meu deus, mais escadas, assim fico sem pernas, pensei. A essa altura já estávamos andando quase abraçados e quando ela abriu a porta a mesa estava posta, com comidas coloridas sobre a mesa e um lustre enorme no teto.

Pablo Sales, 08/06/2006

Foto: Márcio Lima

PASSARELAS FINAS
Para Renatinho Passos

No terreiro do Campo Limpo
Um vento de mel
Açoita flores
O velho tamarineiro
Imponente
Atiça folhas
No terreiro:
Forrado de folhas secas
Abelhas, beija-flores, lavadeiras
Investigam meu olhar de fada
No horizonte:
O verde e o azul matizam
O branco do pensamento
Instigam um doce sentimento
Um ponto de luz fustiga:
Nova prosa, nova promessa
Pracatá, pracatá, pracatá
Escuto presença - estrela?
Na antiga casa, única cena:
Memória.
Cheiro antigo paira.
Debruço nesta janela:
Histórias, livros, músicas
Chão, paredes, portas, janelas
Jacarandás, móveis, louças
Gestos, sabores, espelhos
Eis-me:
Vestida de finas lembranças.
Princípio, infinito.

Lita Passos
Foto: Márcio Lima

JARRO ATRAVÉS DAS CORTINAS DOS CABARÉS

Hoje pela manhã eu não sou mais o seu Anjo.
Nestes chuviscos de abril a tua presença
ainda é rasa, quando arroto a faca
contra as paredes deste lado
oculto, a tua presença
existindo nas criaturas que me escapam,
talvez de outro mundo, coisa de Rama-mu,pináculos
pinturas de Goya ou lições cármicas em trânsito
nunca cumpridas
que certamente não me orientam um céu
como desligar um silêncio irreparável na sua nudez
ou um astro que sua garganta arranca na madrugada...
Capturávamos as partituras de Listz, The Cure em
Standing on a Beach para nada de novo
neste viscoso fragmento de nuvem
sobre a mesa no tempo dos luares
(onde dormem as borboletas onde Daniel joga
baralho com Clívia suspeitando
dos tufões e dos milagres luciferinos): limite
intransponível a sonolência
de embriagar-nos diante das luzes da noite,
nossas mãos se contorcendo numa obscuridade
fulminantemente vaga: desesperos
vedando a metamorfose das valquírias
neste impregnado jarro através das cortinas dos cabarés,
esperando parentes nostálgicos, considerações
a respeito da mandala, um peixe humano
uma audácia impressionante o que ocorre
nestes momentos de aves furiosas,
certamente além destes automóveis dilacerados.
E de novo hoje pela manhã estamos alcançando o limiar
do real: fluidez-emulsão
de gritos e pausas enigmáticas
(os de fora esquartejam os oceanos
através de visões clandestinas,
o auge da graça indefinida).
Preciso não mais roer vertiginosamente
os olhos de Carla
mesmo enquanto o sangue dos ladrões for alucinação
que se perde no outro lado da noite,
brotando flor madura, misteriosa...
Para que nos forjar de fadas entre os chamuscos
se esta náusea não fantasia a dor?
Não nos privaremos de razão agônica alguma...........

Nelson Magalhães Filho

Foto: Márcio Lima

O BEIJO MORDIDO PELO PÓ DE LÓTUS AZUL

Naqueles dias sempre me perguntava:
por que peixes e estrelas estão sempre juntos?
Cheguei às 3 da madrugada e liguei o rádio:
"ao sentar-se junto no parque
como o céu à noite na crescente escuridão
ela o viu e ele sentiu uma faísca
tingle to his bones..."
Tinha assistido O Importante é amar
do Andrzej Zulawski,
tudo naquele interminável sonho de inverno,
nem sei se chovia pelas ruas os micróbios
e as auréolas rosas de computadores interdigitais
exterminando os miseráveis
com seus morcegos da Babilônia
já dissipando-se da Praça Senador Temístocles
convertida em labirintos de gardênias
naqueles dias cheios de esperanças
quando, sem que houvessem ressonâncias de desejos
se moendo uns aos outros,
infundíamos uma crença de sereias...
Escrevo uma história isenta de relógios
ou temporais escapados dos telhados,
fabricando orelhas com papelão de sapateiro
como minha avó fazia
sem que ninguém a visse nas imensas noites,
conservando cachos de glicínias em seus cabelos
(a fênix neste oráculo),
e sei que meu corpo é o navio medieval
na lerdeza das revelações:
- Dizei-me em que terra
se encontra Taís de François Villon
ou qualquer cristal de Herzog.
Se tudo isso é bizarro?
Gritem que os olhos encravados de Lorca
viram a branca parede em que urinavam as meninas,
gritem que o carisma metálico da cidade
enforca teu riso no céu de minha rua,
esse nosso beijo mordido pelo pó de lótus azul.
Lembrei-me duns trechos assim:
"Isso não é um lamento, é um grito de ave de rapina.
Irisada e intranquila" a lágrima na face
insana de Lucienne Samôr.
Lembrei-me de outras,
eu pintava A Luta de Jacó com o Anjo
enquanto uma luz apodrecida plantava peixes
e estrelas em teu corpo.
Egon Schiele lograva em ameaçar com as pontas dos dedos
corroendo espelhos e gestos
já não depuram o mal de cada expressão.
Resvalo meu olhar nesse tempo.
Não se concederá tecer o jogo ambíguo de Kaspar Hauser
a palavra acanhada desta história
turva a frágua
manobrando artimanhas.
Existem outras coisas lembrando relatos
de encantamento, cera de abelha, um anoitecer
relicário de óleo de rícino, anáguas, manjericão
e agora eu tinjo teus cílios com jurubebas
parentes de copaíbas e milagres.

Nelson Magalhães Filho





Foto: Márcio Lima

terça-feira, janeiro 02, 2007

JORNAL DAS PAIXÕES

Qual a arte que vai decifrar o doce movimento
do meu olhar escorregando sobre teu peito
estrelário de paixões?
Cicatrizes cibernéticas
ou prontuário de yoga antigo
é possível entender tudo?
Maneirismos: você é meu inimigo e me ama
viciosamente
sem contradições ou movimentos
ou catástrofes.
É assim que Cruz das Almas doce
que um Gustave Moreau simbolizaria num Orfeu
misterioso
se transforma em um catálogo fantástico
por uma Rua das Flores entardecendo nos beijos
perfumosos das meninas do Pulo do Bode
nas invenções de cada beco
com seus frascos e fogos
longe de Itaparica e perto do mal.
Quem me dirá que as visões de William Blake
e José Salomão são gradações de hemorragias
incuráveis
em nossa mais antiga letargia?
Como viveremos daqui por diante?
Como os olhos de Hébe, onde é
Arcádia/antimatéria
onde as vistas de Hiroshigo nesta parede branca
basta olharmos para que as transmutações
do destino sincronizem com o não-destino,
a vida passa como um temporal fugaz
e nós inteiros, doídos de ver na quiromancia
que o tempo saqueou de nossas almas,
os leões e as andorinhas presas em lembranças.
Transilvânia, Recôncavo, onde são?
Ah, fruta-olor leio no Bagavad Gitâ o nascimento
e a morte: não é verdade que tenha havido
um tempo em que Eu não existia, nem esses
príncipes.
Hébe sente a lua prematura encravada
em sua nuca e a cidade não escutaria
a centelha de seus sussurros
nem a brisa refletida nas lâmpadas de mercúrio.
Farejamos isso, tricotamos nossas razões.
Traçar estas harmonias num espelho inítido
é coisa tão imprópria como tanger
os pássaros
além das campânulas de Asgard
além de todas as dores
as do dia e as da noite. O futuro é nossa festa?
Nas carnes meu amor ainda seria um cachorro
sem dono madrugadamente repelindo a tristeza
nas poças.

Nelson Magalhães Filho