Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, janeiro 12, 2007




"Minha vida que não me ama, minha amada que não vai me amar: seduzo as duas."
Jack Kerouac


Do mar
cheiro a chuva
na boca.
Os olhos vermelhos de berinjela e por
do sol,
cabelos esvoaçantes
despedem. Anônima
na imensidão
vejo-te sem algas dentro das águas.

Nelson Magalhães Filho

2 comentários:

Anônimo disse...

poema triste. poema de perda de um amor. de partida. as almas estão sempre vendo amores partirem e amores voltarem e novos amores e as vezes as almas só podem ver.
sensivel e marcante.
na imensidão de um pequeno sentimento, anonimo em todos beijos.vai poeta a poesia é o teu lar

Anônimo disse...

Buenas,só mesmo a poesia pode nos salvar,apresentar possibilidades,mesmo diante da impossibilidade.Saltar abismos,seduzir a louca vida."Vida eu quero me queimar no teu fogo sincero,espero que a aurora chegue logo.Vida,minha adolescente companheira a vertigem,o abismo me atrai é essa minha brincadeira".A poesia conseguiu fazer a santa chorar sangue.Era tinta vermelha porem as lagrimas de IKY JANE foram cristalinas,de verdade,nós vimos.